Adolescência, sexualidade e educação
A orientação sexual tem, tradicionalmente, se centrado na prevenção de processos de adoecimento, como as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), em especial a Aids, ou na gravidez adolescente, a partir da prescrição de hábitos e condutas saudáveis.
Nessa concepção, a informação disponível ao jovem brasileiro tem como objetivo conscientizar para uma prática sexual protegida.
O resultado desta política de informação centrada na visão do risco é questionado em pesquisas sobre o comportamento do adolescente.
Autores como Heilborn (2006), Monteiro (2002), Abranmovay et al.(1999), entre diversos outros, observam que esse tipo de conheci- mento não garante a adesão ao seu objetivo educativo, o de tornar relações sexuais uma prática segura, minimizando a ocorrência de danos à saúde física e emocional. Cabral (2003), em seu estudo sobre a paternidade na adolescência e consequente in- terferência na vida de rapazes de camadas populares, é um exemplo disto.
Seu estudo registrou o uso do preservativo em quatro dos 15 jovens pais entrevistados que declararam ter utilizado algum método anticoncepcional após o início do relacionamento.
Oito outros jovens partici- pantes alegaram que não usavam métodos contraceptivos e, nestes casos, a autora registrou a responsabilização da mulher pela proteção e a imprevisibilidade da prática sexual como justi- ficativas para o “não-uso” de métodos preventivos. Estes comportamentos vinculam-se, se- gundo ela, a relações de gênero, o que pôde ser observado, também, na distinção feita pelos entrevistados sobre a prática do sexo sem proteção com as companheiras de “casa” e o uso do preservativo com as meninas da “rua”.
Mais recente, a pesquisa “Gravidez na adolescência: estudo multicêntrico sobre jo- vens, sexualidade e reprodução no Brasil”, realizada em três grandes centros urbanos brasilei- ros, foi outro estudo que reafirma a necessidade de ações educativas sobre sexualidade. As conclusões deste estudo corroboram a necessidade de orientação do adolescente para ques- tões além do enfoque preventivo (HEILBORN, 2006). Nesta percepção, a educação para a sexualidade deve abranger também questões relacionadas a aspectos emocionais, como o pra- zer e o desejo, e sociais, como as diversas formas de relacionamento e comportamento envol- vendo a questão de gênero.
Deve abordar a relação entre pares, a expressão amorosa e afetiva, incluindo as diversas formas de relacionamento existentes no amplo quadro de socialização atual, e orientar para a conquista de autonomia e decisão informada (HEILBORN, 2006; SCHALL, 2000). Esta diretriz é também orientada como eixo transversal ao currículo nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (BRASIL, 1998), e coloca a escola como parceira da família e da sociedade na promoção da saúde da criança e do adolescente. A ação proposta pelo Minis- tério da Educação deve ser a de complementar a orientação familiar, mantendo uma aborda- gem pluralista sobre concepções, valores e escolhas sexuais, e estabelecer um debate integrado à prática educativa, como um processo natural da vida humana. Esta proposta foi fortalecida no Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE (BRA- SIL, 2008) e no Programa de Saúde na Escola – PSE (BRASIL, 2008a), uma ação educativa articulada pelos Ministérios da Saúde e da Educação do governo brasileiro e as organizações internacionais Unesco, Unicef e Fundo de População das Nações Unidas - UNFPA. O PSE propõe a articulação entre secretarias municipais e estaduais de saúde e de educação e universi- dades e organizações sociais para a oferta de ações nas escolas e postos de saúde brasileiros.
OPrograma destina-se à prevenção da saúde sexual e reprodutiva associada ao debate sobre gênero e orientação sexual, introduzindo o conceito sobre direitos sexuais e reprodutivos. A proposta do PSE é bem elaborada e traz um avanço efetivo no campo da educação em saúde na escola e na oferta de serviços de saúde à população adolescente, por fortalecer a participação social e divulgar a importância da orientação sobre sexualidade para o desenvolvi- mento de uma vida sadia. Além de ampliar significativamente o debate sobre o tema, o
Progra- ma vem gerando soluções para dificuldades operacionais, como a criação de mecanismos de formação do professor e a criação de materiais educativos (BRASIL, 2008b). Promover esse encontro de diferentes instâncias para o atendimento de uma questão de valor vital para a saúde do adolescente e do jovem brasileiro representa um movimento importante para a promoção da saúde em sua premissa sobre a atenção para com o meio físico, social e cultural por sua relação direta com as condições de saúde de um indivíduo ou de uma coletividade. A complexidade de abordar um tema como a sexualidade encontra-se na necessidade de um discurso claro diante de um tema tradicionalmente silenciado e considerado de foro íntimo. Significa também apresentar alternativas de pensamento, para respeitar a pluralidade de ideias presentes na sociedade, e a adequação da linguagem à faixa etária e grupo populacional. Uma postura educativa fundamenta-se, também, em uma visão holística, que procura tornar relativo o saber e, sobretudo, o poder de uma razão predefinida como correta, em detrimento do respeito a processos, vivências e escolhas pessoais. Assim, pontos polêmicos ou que envol- vam propostas que interfiram com conceitos fundamentados em processos culturais ou so- ciais, ou até em um cunho ou um desejo pessoal, devem ser abordados em sua pluralidade.
A criação do multimídia ” Amor e sexo: mitos, verdades e fantasias”
A utilização da informática na sociedade tornou-se um fato irreversível (AUGE, 2006), e seus desafios vão além do custo de acesso ao computador e o treinamento da população para o seu uso. É tarefa igualmente importante a oferta de materiais para fins educativos, que apresentem informação abalizada e ambientada em um cenário comunicativo, próximo à rea- lidade de vida brasileira e ao interesse de seu público-alvo. Esses materiais devem pautar-se nas Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (NTICS) e aliar a flexibilidade na apre- sentação de conteúdos a uma abordagem interdisciplinar, favorecendo sua adaptação a dife- rentes usos, tipos de usuários e estilos de aprendizagem (STRUCHINER, RICCIARDI e GIA- NELLA, 2006). A criação do multimídia “Amor e sexo” (MANO, GOUVEIA e PALMA, 2004) fun- damenta-se neste tipo de abordagem. Esta iniciativa do Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz) partiu da realização, em 1996, do “Projeto Integrado de Arte e Ciência”4 (SCHALL, OTERO e FAZEH, 1999), que proporcionou um acervo de perguntas,
O projeto foi realizado pelo Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde (LEAS - IOC) e pelo Museu da Vida (MV – COC), da Fiocruz, por iniciativa de Virgínia Schall, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e a Companhia Teatral Produções Literárias, de Sura Berdichevsky.
O grupo de jovens participava do VI Curso de Formação de Monitores de Centros e Museus de Ciências, parte do Programa de Qualificação Profissional do Museu da Vida/COC/ Fiocruz. O Curso tem a duração de 18 meses, entre o período de aulas e o estagio supervisio- nado de atendimento aos visitantes nas diversas áreas temáticas do Museu.
A escolha desse público específico deveu-se ao seu perfil representativo de comuni- dades da periferia de uma grande cidade e, prioritariamente, ao pertencimento do grupo a várias escolas públicas, o que amplia a amostra em termos de sua representatividade.
Outra característica desejada foi a formação em informática fornecida aos alunos do Curso, uma vez que a habilidade no uso do computação é um fator interveniente importante em estudos que utilizam mídias digitais.
A navegação e posterior avaliação do multimídia foi optativa e formalmente consen- tida. Sua realização se fez por meio de um questionário digital com 25 perguntas, sendo 16 objetivas e nove abertas, que versaram sobre: a identificação do grupo e sua opinião e suges- tões sobre o design, ambientes, linguagem, abordagem do tema, condição educativa e de utiliza- ção do produto.
Deste questionário foram analisadas, para este trabalho, especificamente, as perguntas relacionadas à opinião sobre o multimídia e seus ambientes, e analisadas as respos- tas abertas relacionadas a esta questão. Os dados foram analisados com base em tabulação das questões objetivas e do méto- do de Análise do Discurso do Sujeito Coletivo – DSC das perguntas abertas, com o objetivo de resgatar o conjunto de pensamentos e sentimentos expressos pelos jovens sobre o produto. Segundo o método DSC, a informação expressa no discurso deve ser analisada em uma leitura inicial e classificada por Expressão-Chave (E-Ch), que representa as principais questões de interesse apresentadas em cada resposta. A partir desta identificação, estas E-Ch são agrupadas, compondo um conjunto de pensamentos ou ideias que a coletividade de jovens expressou sobre cada questão. Uma nova leitura e análise das E-Ch permite a identificação de suas Ideias Centrais (ICs), que são também reunidas por sua semelhança, formando os discur- sos coletivos. Os textos originais são assim decompostos por suas expressões (E-Ch) de maior interesse de análise, e, em seguida, são categorizados por suas afinidades de sentido (ICs) e reunificados em um discurso construído, que expressa o pensamento coletivo sobre o tema e, em alguns casos, permite a percepção da Ancoragem ideológica dos discursos emitidos ( LE- FÈVRE, LEFÈVRE e TEIXEIRA, 2000; LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2005).
Avaliação da Expressão-Chave: educativa
A opinião dos jovens sobre o multimídia foi positiva, conforme a nota média 4,6 dada, numa escala de valor entre um, a pior nota, e cinco, a melhor nota. As características mais apontadas foram: o caráter educativo (17 respostas) e o interesse despertado (13). Anali- sando a motivação para as notas, 13 registros a relacionaram ao tema e a importância de informações sobre sexualidade. Essa idéia-chave é representada no seguinte discurso coletivo:
“Esse jogo auxilia os adolescentes na prevenção. É informativo e esclarecedor e nos faz pensar que não devemos fazer as coisas de qualquer maneira; temos que ter ciência do que estamos fazendo. É bem interessante, bastante explicativo, e tira muitas dúvidas que não temos coragem de perguntar. Adorei conhecer mais sobre a vida sexual.